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A nova política cambial brasileira

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Autor(es): Roberto Giannetti da Fonseca
O Estado de S. Paulo – 21/01/2013

Como economista e em­presário de comércio exterior, tomei-me um obsessivo estudioso de políticas cambiais, aplicadas em diversas geografias e conjunturas ao longo da história econômica mundial. Procuro ler tudo o que se escreve sobre câmbio na litera­tura econômica atual. Os últimos hits são os livros do economista americano Barry Eichengreen, Privilégio Exorbitante, e o de seu colega indiano Suijit Bhalla, Des­valorizando para Crescer. Lendo- os, fiquei convencido de que esta­mos definitivamente num mo­mento de profundas transforma­ções na economia mundial, que felizmente não passam desperce­bidas pelos dirigentes do Banco Central do Brasil.

Em 2012 houve um fato econô­mico extremamente relevante: o estabelecimento de uma nova po­lítica cambial pelo governo brasi­leiro. Uma primeira mudança foi a queda no padrão de volatilidade da taxa de câmbio brasileira. A es­tabilidade cambial dos últimos 7 meses não se verifica desdeo aban­dono do regime de bandas cam­biais do Plano Real, em janeiro de 1999, Outras importantes mudan­ças foram a depreciação do real e o reconhecimento explícito pelo governo da inadequação do câmbio valorizado para o desenvolvimento industrial. Considero essas mu­danças bem-vindas, a despeito da opinião de pequeno grupo de eco­nomistas que defendem a livre flu­tuação do real.

A defesa da livre flutuação da taxa de câmbio passa por uma hi­pótese básica: a de que os fluxos financeiros internacionais levam a taxa de câmbio necessariamen­te ao equilíbrio macroeconômi­co. Ou seja, argumenta-se quê a flutuação tende a estabilizar a ta­xa de câmbio real num patamar de equilíbrio dos preços domésti­cos vis-à-vis os preços internacio­nais, e as variações do câmbio no­minal respondem a mudanças de produtividade entre as diferentes economias. Um aspecto notável da defesa da flutuação é o argu­mento de que a especulação no mercado de cambio seria estabilizadora. Essa tese foi defendida por Milton Friedman e está implícita nos discursos de quem advo­ga pela livre flutuação. O proble­ma é que essa teoria só se sustenta no plano da abstração. No mundo real, a especulação é desestabilizadora e o mercado financeiro não leva o câmbio a equilíbrio algum. A sucessão de crises e a alta volati­lidade, recentemente, nos merca­dos de câmbio tiraram o crédito dessas teses, e a teoria econômica passou a incorporar a arbitrarieda­de dos agentes financeiros em seus modelos e o comportamen­to mimético por que são guiados.

A chamada abordagem comportamental da taxa de câmbio, por exemplo, tem como base a ne­gação dos agentes racionais repre­sentativos. Para esta, os agentes têm dificuldade em coletar e processar as complexas informações com que eles são confrontados e, por isso, usam regras simples pa­ra guiar seu comportamento. Pe­riodicamente, essas regras são reavaliadas, fazendo com que al­gumas sobrevivam e outras desa­pareçam, não pela irracionalida­de dos agentes, mas pela comple­xidade do mundo em que vivem. O resultado é um mercado inefi­ciente onde o descolamento en­tre a taxa de câmbio e os funda­mentos é a regra, não a exceção.

Hoje há amplo reconhecimen­to de que a política cambial é ne­cessária para neutralizar as distor­ções provocadas pelo setor finan­ceiro. Estas podem ser temporá­rias ou conjunturais, decorrentes da instabilidade do mercado fi­nanceiro e de episódios de especu­lação pela apreciação ou deprecia­ção do real. Nesse caso, a política cambial tem o papel de conter os excessos do mercado financeiro, evitando overshootings e um ex­cesso de volatilidade da taxa de câmbio. Mas, no caso brasileiro, as distorções financeiras vão além do padrão de volatilidade da taxa de câmbio e geram processos longos de apreciação cambial, in­tercalados com curtos e abruptos períodos de depreciação. Esse pa­drão de comportamento da taxa de câmbio é pronunciado por cau­sa da alta rentabilidade de investi­mentos financeiros domésticos e, principalmente, das (ainda) al­tas taxas de juros praticadas no País, que dão origem ao carry tra- de operado principalmente nos mercados de derivativos.

Alguns argumentam que a vola­tilidade cambial é necessária para compensar as variações nos pre­ços de commodities e, assim, evi­tar pressões inflacionárias. Ora, esses preços têm sido extrema­mente voláteis nos últimos anos e, diga-se, a determinação desses preços também tem ocorrido nos mercados financeiros, como na bolsa de futuros de Chicago. Não cabe à taxa de câmbio brasileira reproduzir esse padrão de volatili­dade. Deve-se encontrar formas alternativas de neutralizar a pres­são desses produtos sobre a infla­ção sem prejudicar as exporta­ções industriais e desnortear o in­vestimento produtivo.

O que está em jogo é o projeto de desenvolvimento que quere­mos. Os economistas que defen­dem a livre flutuação são os mes­mos que advogam pela especiali­zação regressiva da economia brasileira. Para eles, o Brasil ideal se­ria um pujante exportador primá­rio com um setor financeiro sofis­ticado (não por acaso a Austrália é bastante citada como exemplo). Mas o Brasil não é a Austrália, te­mos uma população de 200 mi­lhões de habitantes, predominan­temente urbana, e precisamos de um projeto de desenvolvimento que passe pelo setor industrial, que dinamiza a economia, inova e pode oferecer empregos de quali­dade numa escala maior do que o setor agrícola. Assim, a despeito das críticas, a nova política cam­bial observada em 2012 é bem-vin­da, as autoridades devem manter a administração da taxa de câm­bio elevar adiante, com gradualismo, a tendência de desvaloriza­ção do real para um nível de R$ 2,20 a R$ 2,30 até o final de 2013.

Fonte Internet: Clipping Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, 21/01/13

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